Sistema usado pela corporação registra alteração e exclusão de imagens críticas sem identificação clara; caso levanta suspeitas de fraude e encobrimento
PM-SP investigada por apagar vídeos de câmeras corporais: A Polícia Militar de São Paulo é alvo de uma denúncia gravíssima: a plataforma digital utilizada para armazenar imagens das câmeras corporais dos policiais, chamada Evidence, estaria permitindo a exclusão de vídeos sem registro de autoria, por meio de um “usuário anônimo”. As informações constam em registros internos obtidos com exclusividade pela imprensa e apontam para possíveis fraudes e manipulações de provas, inclusive em casos envolvendo mortes durante operações.
A denúncia partiu de uma investigação independente e foi reforçada por relatos de um ex-policial militar envolvido na implantação do sistema, que classificou o Evidence como “totalmente fraudável”.
Caso concreto envolve morte de homem durante operação em Santos
Gravação sumiu após ser associada a “usuário de operações”
Um dos casos que acendeu o alerta ocorreu em 9 de março de 2024, durante uma abordagem da PM no Morro do José Menino, em Santos, litoral paulista. O vídeo, gravado pela câmera do soldado Thiago, mostrava o momento da morte de Joselito dos Santos Vieira, de 47 anos, atingido por disparos de fuzil e pistola.
O arquivo foi armazenado no sistema no dia seguinte à ação. Oito dias depois, segundo os registros obtidos, a gravação foi modificada e atribuída a um “usuário de operações”, com e-mail externo ao domínio da corporação. Em seguida, foi excluída definitivamente, sem qualquer registro pessoal identificável vinculado ao ato.
Ex-PM afirma que sistema permite deletar sem rastros
O ex-policial militar Bruno Dias, especialista em provas digitais e responsável pela implantação do Evidence, afirmou que o sistema permite que qualquer usuário promova a si mesmo a administrador, altere permissões e delete vídeos avulsos ou em massa, sem deixar rastros claros.
“Você consegue apagar, mudar o nome, alterar a autoria e adulterar data e hora dos vídeos. Isso coloca em risco toda a cadeia de custódia das provas”, afirmou Dias, em entrevista ao portal Metrópoles.
Segundo ele, o sistema já acumula mais de 20 milhões de vídeos, e a alteração dos metadados pode tornar irrecuperável qualquer gravação adulterada ou excluída.
Governo abre sindicância e promete apuração rigorosa
SSP admite vulnerabilidades e diz que atos serão punidos
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) confirmou, por meio de nota oficial, que abriu uma sindicância para apurar o caso. A pasta afirmou que “eventuais desvios de conduta serão rigorosamente investigados” e que trabalha para reforçar os mecanismos de controle e integridade da plataforma.
Nos bastidores, fontes da própria corporação relatam que há preocupação com o impacto institucional da denúncia, já que as câmeras corporais são utilizadas como símbolo de transparência da PM paulista.
Reações nas redes sociais dividem opiniões
Grupos de direitos humanos cobram auditoria externa
A repercussão nas redes sociais foi imediata. Usuários denunciaram o caso como “apagão institucional de provas”, enquanto ativistas dos direitos humanos pedem auditoria independente e suspensão de todos os acessos administrativos ao sistema Evidence.
Já em grupos de apoio à segurança pública, houve quem defendesse a PM e questionasse a veracidade da denúncia, exigindo provas técnicas mais robustas.
A pressão popular já levou deputados estaduais da oposição a protocolar pedido de criação de CPI na Assembleia Legislativa de São Paulo.
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