Como surgiu o “Pix do Milhão” e quem está por trás do projeto
Pix do Milhão: Negócio Bilionário: O “Pix do Milhão” é uma iniciativa da empresa Pix do Milhão Prêmios e Ebooks Ltda, com sede na cidade de João Pessoa, Paraíba. O nome mais conhecido por trás do projeto é o do influenciador paraibano Rafael Cunha, conhecido nas redes como Viga.
Viga não é apenas um rostinho na câmera: é também sócio da empresa e um dos principais estrategistas da marca. Em diversas ocasiões, ele afirmou publicamente que o sorteio é legalizado, auditado e autorizado pela Loteria do Estado da Paraíba (Lotep). Essa é uma diferença crucial quando comparado a outras plataformas que atuam no limbo legal das apostas online, como as chamadas “bets”. Quando o escândalo das bets explodiu no Brasil em 2024, diversos sites e plataformas foram alvos de investigação por parte da Polícia Federal. No entanto, o “Pix do Milhão” nunca foi investigado.
Preocupado com a associação de seu nome ao mercado ilegal de apostas, Viga se pronunciou publicamente em setembro daquele ano. Em vídeos e postagens, ele ressaltou que sua empresa tem alvará, licença de operação e auditoria regular. Segundo ele, a legalidade da operação é um dos pilares do negócio, que conta com respaldo jurídico e contábil para operar em todo o território nacional. Contudo, não há registros públicos detalhados que comprovem tais autorizações junto a órgãos federais ou estaduais acessíveis ao público.
Como funciona o modelo de negócio: e-books, números da sorte e gatilhos mentais
O “Pix do Milhão” vende e-books digitais por valores que começam em R$ 3,99 por unidade. Cada e-book comprado dá direito a um número da sorte, que participa de sorteios semanais. O grande destaque é o prêmio de R$ 1 milhão, mas também existem centenas de prêmios menores que vão de R$ 50 até automóveis populares como o Renault Kwid. Além disso, a plataforma utiliza “Giros da Sorte”, um recurso extra que adiciona ainda mais chances de ganhar pequenos prêmios.
O diferencial está nas promoções recorrentes. Por exemplo, ao adquirir 10 e-books por R$ 9,99 (em vez de R$ 39,90), o participante recebe 10 números + 5 Giros da Sorte, criando uma sensação de vantagem psicológica. Trata-se de uma estratégia baseada em gatilhos mentais de urgência e recompensa, bastante conhecida em técnicas de marketing digital.
A engrenagem bilionária: quanto fatura o Pix do Milhão por semana?
Com valores tão baixos por unidade, o segredo da rentabilidade do negócio está na escala massiva. Considerando que muitos participantes compram pacotes promocionais de 10, 20 ou 50 e-books, é possível estimar que o ticket médio de compra esteja entre R$ 10 a R$ 30 por usuário.
Com o apoio de influenciadores gigantes, a empresa consegue atingir milhões de pessoas por semana. Estimativas conservadoras indicam que o “Pix do Milhão” possa movimentar entre R$ 5 a R$ 15 milhões semanais, dependendo da força da campanha e do número de afiliados promovendo a oferta.
Ainda que não haja confirmação pública sobre autorização formal, é inegável que o volume de dinheiro movimentado por esse modelo de sorteio digital seja gigantesco, com margens de lucro significativas, sustentadas por uma base de consumidores que, em muitos casos, estão em busca de uma saída rápida para seus problemas financeiros.
Os influenciadores como afiliados: um exército de vendedores com alcance nacional
O sucesso estrondoso da marca está diretamente ligado ao marketing de influência. Celebridades e criadores de conteúdo de vários nichos promovem a venda dos e-books em troca de comissões por performance ou campanhas fixas. Entre os nomes já associados estão:
- Rodrigo Faro
- David Brazil
- Jojo Todynho
- Luva de Pedreiro
- Cremosinho
- Ruivinha de Marte
Esses influenciadores funcionam como “afiliados” e ajudam a impulsionar as campanhas através de vídeos no Instagram, TikTok e Facebook. Alguns fazem lives promovendo o sorteio, outros aparecem como ganhadores fictícios, e muitos deles participam de eventos com Viga para reforçar a credibilidade da plataforma.
Ao usarem suas imagens para divulgar o “Pix do Milhão”, esses influenciadores se tornam parte ativa do processo de conversão em vendas. A cada menção, story ou vídeo publicado, milhares de seguidores são expostos ao sorteio, criando um ambiente de consumo que mistura entretenimento, ilusão de enriquecimento rápido e pressão social.
Pequenos prêmios, grandes ilusões: o ciclo do reinvestimento
Um dos aspectos mais discutidos nas redes é o comportamento do usuário após ganhar um prêmio pequeno. Ao receber R$ 100, um celular ou um Pix de R$ 50, é comum que o ganhador reinvista esse valor em novos e-books, acreditando que está “com sorte”. Esse ciclo de consumo lembra muito a lógica dos jogos de azar, como o popular “Tigrinho”.
Ainda que Viga afirme que o “Pix do Milhão” esteja regularizado, o modelo psicológico é semelhante ao de uma roleta: pequenas vitórias incentivam apostas maiores, com base na expectativa de uma recompensa maior. É o chamado “reforço intermitente”, um mecanismo poderoso estudado pela psicologia comportamental, comumente associado a mecanismos de dependência comportamental.
O impacto entre os mais vulneráveis
Dados recentes mostram que cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família destinaram parte do seu benefício a apostas e plataformas similares em 2024, movimentando R$ 3 bilhões. Embora o “Pix do Milhão” não se enquadre tecnicamente como uma plataforma de apostas, os efeitos sociais têm sido semelhantes.
O baixo valor de entrada e a promessa de um grande prêmio atraem pessoas de todas as idades, muitas vezes com pouco conhecimento financeiro. Famílias inteiras já relataram que utilizam parte do orçamento doméstico para participar dos sorteios, reduzindo gastos com alimentação ou contas básicas.
Considerações finais: um negócio altamente lucrativo que exige mais transparência
O “Pix do Milhão” é uma empresa que afirma ser legalizada, auditada e transparente sobre suas regras de participação. No entanto, seu modelo de atuação levanta questões importantes sobre responsabilidade social, comportamento do consumidor e marketing de influência.
Trata-se de um novo tipo de loteria digital, com roupagem moderna e estratégia de alcance massivo. O negócio funciona, fatura muito e se beneficia da imagem de influenciadores para escalar suas operações. Mas seu impacto na vida de milhões de brasileiros, especialmente os mais pobres, precisa ser analisado com mais profundidade por especialistas, reguladores e pela própria sociedade.