Tensões geopolíticas entre EUA e China colocam em xeque negociação de portos estratégicos
Disputa no Canal do Panamá: Uma negociação de US$ 22,8 bilhões envolvendo a BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, e a CK Hutchison, conglomerada de Hong Kong, está no centro de uma disputa geopolítica que pode afetar o comércio global. Anunciado em 4 de março de 2025, o acordo para a venda de dois portos no Canal do Panamá – Balboa e Cristobal – foi adiado em 29 de março após intervenção da China, que contesta a perda de influência na região.
Contexto da negociação
O que está em jogo no Canal do Panamá
O Canal do Panamá é uma artéria vital do comércio marítimo, responsável por cerca de 3% do tráfego global, segundo a Autoridade do Canal do Panamá (ACP). Os portos de Balboa, no lado Pacífico, e Cristobal, no Atlântico, são estratégicos para o controle logístico da rota.
A BlackRock lidera um consórcio americano que busca adquirir esses ativos como parte de uma transação maior, envolvendo 43 portos em 23 países, pertencentes à CK Hutchison, do bilionário Li Ka-shing.
A venda foi vista como um movimento dos EUA para contrabalançar a crescente presença chinesa na América Latina, onde empresas de Hong Kong e da China continental têm investido em infraestrutura nas últimas décadas.
Detalhes da disputa
Intervenção chinesa e adiamento
Em 28 de março de 2025, o regulador antitruste da China anunciou uma revisão do acordo, alegando preocupações com segurança nacional e concorrência no mercado portuário. A decisão veio dias antes da assinatura prevista para 2 de abril, forçando a CK Hutchison a adiar o processo, conforme confirmado pela Reuters em 29 de março. A medida reflete a escalada das tensões entre Pequim e Washington.
Jornais estatais chineses, como o Ta Kung Pao, classificaram a venda como uma “traição” aos interesses do país, enquanto as ações da CK Hutchison caíram 2,3% em Hong Kong no dia 31 de março, segundo a Bloomberg.
Pressão dos EUA
Do outro lado, o presidente americano Donald Trump celebrou o acordo em discurso no início de março, afirmando que “os EUA estão retomando o controle do Canal do Panamá”. Embora o canal seja administrado pelo Panamá desde 1999, a retórica reflete o desejo de Washington de limitar a influência chinesa na região.
Impactos no comércio global
Riscos para a economia mundial
O atraso na negociação pode gerar incertezas no comércio marítimo, especialmente em um momento de recuperação econômica global. Em 2024, o canal movimentou 270 milhões de toneladas de carga, conforme dados da ACP. Qualquer mudança no controle dos portos pode influenciar custos logísticos e tempos de transporte, afetando cadeias de suprimentos entre Ásia, Américas e Europa.
Analistas da South China Morning Post apontam que, se a China bloquear o acordo, a CK Hutchison pode enfrentar pressões para buscar outros compradores, prolongando o impasse.
Declarações oficiais
O que dizem as partes
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BlackRock: Em nota à imprensa em 30 de março, a gestora afirmou que “permanece comprometida com a aquisição” e está cooperando com as autoridades chinesas para esclarecer a revisão.
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CK Hutchison: A empresa declarou, segundo a Reuters, que “avalia todas as opções” diante do adiamento, sem descartar a possibilidade de cancelamento.
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Governo chinês: O Ministério do Comércio da China justificou a revisão como “procedimento padrão” em transações de impacto global, mas não deu prazo para conclusão.
O governo do Panamá, por sua vez, manteve silêncio oficial até o momento, reforçando sua posição neutra na disputa.
Dados relevantes
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Valor do acordo: US$ 22,8 bilhões, incluindo os portos panamenhos.
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Ativos da BlackRock: US$ 10,5 trilhões sob gestão (1º trimestre de 2024).
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Tráfego no canal: 13.000 navios por ano, segundo a ACP.
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Queda nas ações da CK Hutchison: -2,3% em 31 de março de 2025.
O que vem a seguir?
Com a revisão antitruste em curso, o destino do acordo segue incerto. Especialistas preveem que o desfecho pode levar semanas ou até meses, dependendo da pressão diplomática entre EUA e China. Enquanto isso, o Canal do Panamá permanece um símbolo das disputas por poder econômico no século XXI.